O carro importado, com emblema famoso junto ao cofre fronteiriço, parou na avenida movimentada do centro, obrigado pelo sinaleiro, que mudara de cor.
O motorista, rapaz ainda, aproveitou a parada para fazer uso de seu celular.
Não percebe o aproximar de estranhos que em instantes, estavam encostados à porta do veiculo.
_É um assalto, moço!
Falou um garoto com roupas comuns, surradas pelo tempo, não aparentando mais do que seus doze anos, apontando ao motorista um Táurus, calibre 38, carregado.
_Você esta brincando, garoto? – Disse o rapaz, não acreditando no que acontecia.
_É um assalto moço! –Repetiu o garoto, apontando a arma _ O que tem ai pra mim?
O motorista colocou a mão na maçaneta e empurrou à porta contra o corpo do menino.
Com o tranco, a arma dispara, e o filete de sangue corre do peito do motorista, que tomba para o banco do carona, enquanto o assustado garoto corre pela avenida, levando a arma.
No final da tarde, enquanto o rádio e a TV dão a noticia da morte, em plano avenida, do jovem e promissor executivo, o garoto sobe o morro e, com cara assustada entra no barraco onde lhe espera a mãe, seis irmãos menores e o pai, que visivelmente embriagado, lhe pergunta.
_Nada! O moço reagiu! - Respondeu o menino, assustado.
A mão do alcoólatra estalou no rosto do menor com tamanho fúria, que um filete de sangue escorreu da boca do pequeno infrator.
_E porque você não limpou o cara? – Perguntou o pai, em fúria.
_Fiquei com medo! - Respondeu o menor, limpando o sangue.
Novo tapa, e outro filete de sangue escorreu da boca do menino, manchando a camisa encardida que vestia.
_E agora? – Disse o alcoolizado pai –Como vou pagar a conta do boteco?
O menino, passando a mão no rosto, saiu pela porta do barraco e sumiu, na escuridão do começo da noite.
Seis meses depois um menino, o mesmo garoto, é manchete na TV.
“Menor é baleado por PM, durante assalto em coletivo”- Diz o locutor do noticiário, que mostra o corpo sem vida do menino.
Ao ver a imagem, na TV preto e branco do boteco do morro , um freguês, grita
_“ Mataram meu filho!”
O dono do botequim, virando-se para um outro freguês, diz:
_É... Mas uma conta, que não vou receber!
Coisas deste pais!
COISAS DA ECONOMIA.
_Qual é o preço da banana moço?- Perguntava uma freguesa ao feirante.
_Depende, minha senhora! – Respondia o comerciante.
_Depende do que?
_Ora, minha senhora, do dólar!
_Mas eu quero a banana....não caviar russo!
_Pois olha, ontem, este tal de caviar estava mais barato do que a banana, num sabe?
_O senhor esta curtindo com a minha cara?
_De maneira alguma, freguesa! É que a banana, ontem, estava cotada a três dólares, e o tal do caviar, valia dois e oitenta!
_Isso é um absurdo!
_Também acho, dona!
_Quanto vale, hoje a dúzia desta “preciosidade”?
_Deixe-me ver.... três dólares e quarenta e cinco....
_Tá muito caro!
_Também acho!
_Vou levar maçãs!
_Nacionais ou argentinas?
_Nacional, que é mais barata...
_Não, minha senhora!
_Não o que?
_A argentina, pela cotação, tá mais barata hoje!
_É um absurdo!
_Também acho!
_E quem resolve?
_E eu sei lá ??!!
O tiro cortou a rua , e antigiu em cheio o peito de Onofre , que assista ao jogo do Palmeiras , na sala de estar. Foi um baque surdo , acompanhado de um filete de sangue..... Onofre nem soube o que o atingiu....... Quando Maria chegou perto , nada mais havia para ser feito , pois a bala atingira o coração do Palmeirense , com força muito superior a um gol do Corinthians , feito de falta e sem barreira . A bala atravessou a vidraça da sala , num ângulo perfeito , como se soubesse o endereço do pai de família .
O grito de Maria ecoou pela casa , e chegou a rua , onde a confusão já se fazia formada , pois cabo Laurindo segurava um revolver , apontando-o para o Mário. Já havia errado um tiro , mas o próximo, não era comum errar .
João Cardoso , dono do armazém tentava conversar com o cabo, que não queria conversar, pois Mário havia destratado Laurindo e isso, o antigo membro da força pública , não admitia. Quando o grito de Maria alcançou a pequena multidão, foi como um banho de água fria, pois todos se viraram para a mulher que atingia a rua , trazendo as mãos manchadas pelo sangue do marido .
Cabo Laurindo, ao ver o sangue, instintivamente largou a arma, pois entendera o que havia acontecido . Onofre era seu compadre, padrinho de seu filho do meio, e Laurindo o tinha em alta conta . Mário correu para a casa de Onofre, e voltou confirmando: a bala atingira o velho Onofre, que lá estava sentado no sofá, com bermuda verde, sandálias havaiana nos pés, camisa do Palmeiras e uma bala, alojada no coração.
Chamou-se a polícia.
João Cardoso recolheu a arma de Laurindo e a guardou na registradora do armazém .A rua em instantes se tornou o centro das atenções do bairro .A polícia chegou meia hora depois.....Laurindo entregou-se.......
Onofre foi para o instituo medico legal e Maria acompanhada pôr Mário e amigos, providenciou o velório.... Coisas corriqueiras, nada mais do que coisa corriqueira .....

CLEMENTINA.
Clementina vivia isolada em uma casinha ao pé da serra, sobrevivendo de pequenos serviços e do que conseguia tirar do pequeno de chão, entre a casa e a serra, onde plantara uma pequena horta e alguns vegetais.
Seus pais haviam falecido de lepra, e a jovem Clementina foi isolada pela vila, com medo da doença. Clementina, embora filha de leprosos, não desenvolvera doença alguma, mas mantinha-se em seu canto, ao pé da serra, preparando pequenos serviços a quem lhe procurasse . Seu sorriso era franco, aberto e humilde, e cativava todos com quem tratava.Desde muito jovem aprendera a arte do bordado em linho, e era a melhor bordadeira da região, visto que seus trabalhos estavam nas melhores casas da cidade, e recebia encomendas de todo o estado. Esta era a sua maior fonte de renda. Alem dos bordados, Clementina ganhara fama pôr suas “garrafadas” feitas com ervas medicinas de seu próprio cultivo, que serviam para diversas doenças.
Não havia sido uma “garrafada” de Clementina, que colocara novamente em pé o marido de Das Dores, de quando se rendeu, levantando saca de cimento, ainda na construção da casa nova? Também não havia uma garrafada sua, feito à filha de Marcolina, colocar pelas urinas as pedras, que o doutor Marcos teimava em operar ?
E quando o Juvencio pegou aquela infecção nos pulmões, não foi Clementina e suas garrafadas que o colocaram novamente respirando com normalidade ?
Foi Clementina também que deu cura na tosse do vigário, que carregava aquela rouquidão já fazia tempo
Clementina era assim desde menina......
Logo aos dez , já se prontificava a ajudar, e foi com quase treze que ajudou no parto do filho da Gertrudes , que nasceu virado.
Pois Clementina contrariando às ordens de doutor Inocencio, pai do doutor Marcos já falecido, sentou-se na barriga de Gertrudes e só então nasceu o menino .
Agora, Clementina não mais se aventura, pois já esta na beira dos oitenta, com fortes dores pela corpo.
Pôr certo ainda faz seus bordados e mistura suas garrafadas, mas não se aventura a fazer o que fazia quando moça, pois a idade não lhe permite.
Nunca casou a Clementina .
A única companhia que possui e um gato de nome Germano, que criou desde pequeno.
No ultimo sábado, sentiu fortes dores no peito, e pensou que ia para o outro lado, mas tomou chá de boldo e sentiu-se melhor.
Horácio, como faz todos os dias, chegou no casebre de Clementina no final da tarde, e sentiu algo estranho.
Chamou Clementina, mas ela não lhe respondeu .
A porta da frente, como sempre, estava só encostada, mas Clementina não estava lá.
No peito dos pés, tanto no esquerdo como no direito, Clementina possuía uma ferida em forma de furo, de onde ainda brotava um filete de sangue. Na palma das mãos, o mesmo ferimento . Na testa, pouco acima dos olhos, se podia ver uma fileira de furinhos, todos brotando sangue .
Horácio, assustado, não tocou no corpo . Quando o vigário chegou, e viu o que Horácio lhe mostrou, postou-se junto ao corpo e puxou as orações em terço, que Horácio procurou acompanhar. A cada pedaço do terço, o corpo se compunha . Primeiro foram as chagas dos pés, que se fecharam. Depois foram as chagas das mãos e, pôr fim, sumira os pequenos furos da testa da anciã. Clementina ganhou uma serenidade absoluta, e o corpo, que estava gelado, voltou a quentura normal como se vivo estivesse . Parecia que Clementina havia suspirado a poucos minutos, e já se passara horas..... Seu corpo ganhou sepultura cristã e até hoje de seu mausoléu brota um vazamento de água doce, com gosto de manga que os crentes recolhem em pequenos vidrinhos.
Corre notícia que o líquido recolhido da sepultura tem cura certa para várias doenças , se usado com esperança e fé . Horácio, na data em que se comemora a morte de Clementina não pode sair de casa . Seus pés ficam roxos, com cor de sangue pisado, e as mãos ganham a mesma tonalidade . Horácio sente dores por todo o corpo, e não encontra ânimo para nada. No primeiro ano da morte de Clementina, bem no local em que seu corpo foi encontrado, sem mais aquela, pegou fogo no casebre ao pé da serra. O mais estranho e que a horta e o pomar, nem sequer foram atingidos pela fumaça.
Explicação ? Para que ?

O prefeito da pequena cidade, eleito faziam menos de dois meses, enfrentava como podia a cobrança da população, tendo em vista suas promessas de campanha.
Prometera sem pensar nos conseqüências, que iria asfaltar cem por cento da cidade, mas esqueceu de que os cofres da cidade não tinha recursos, para a obra de asfaltar a cidade.
As cobranças do povo, no entanto, eram constante e direito, não dando trégua nem ao prefeito e nem aos seus assessores, e a coisa já estava incomodando o bom andamento da administração, pois nenhum funcionário da prefeitura podia circular pela cidade, sem ouvir as cobranças pela promessa feita.
De certa forma, a cidade tinha lá suas razões, pois o Juvenal, motorista de taxi, comprou um carro usado do Mário Quitandeiro.
No registro , mandou colocar a cor do carro, ou seja: mostarda, e assim foi feito o registro oficial, só que o Juvenal não falou com o Mário, quando fez o documento.
Na primeira chuva que caiu, pesada como sempre, o Juvenal descobriu que havia cometido um erro, pois o carro era bege, e não mostarda. A “mostarda”, era poeira, do barro vermelho que é , em seu todo, o calçamento da cidade.
Ninguém sofre mais com isso do que a Maria do Juarez, que depois da morte do pobre, sustenta os filhos como o lavar de roupa pra fora.
Já perdeu a conta das roupas que, do varal, voltaram para o tanque por causa do pó, que levanta da rua, quando um carro passa.
Certa manha, um matuto bem intencionado, encontrou-se com o prefeito na porta da prefeitura, e logo foi dizendo:
_Olha, eu tenho cá uma idéia, que vai resolver todos os problemas da cidade!
_Que idéia é esta? - Disse o prefeito.
_Uma idéia para asfaltar, praticamente de graça, toda a cidade!
_Ora, amigo, a cidade não tem dinheiro! Respondeu o prefeito.
_Mas, para asfaltar, não é necessário gastar dinheiro nenhum!-
respondeu o matuto.
_Ora, vamo asfaltar a cidade com a bosta de boi, ora! -respondeu o matuto, serio.
Foi uma gargalhada geral, entre os assessores do prefeito, que o acompanhavam.
O matuto, magoado, saiu, prometendo mostrar o que dizia.
Uma semana depois, um caminhão despachava à porta da prefeitura, uma mistura estranha, feita de bosta de vaca, capim seco, água e um quarto de cimento comum, e o matuto acompanhado por dois amigos, espalharam aquela mistura na rua de chão batido, alisando muito bem tudo. Em duas horas, a rua frente a prefeitura não tinha mais nem um centímetro de barro a vista e não havia mais uma poeira levantando do chão.
Quando o prefeito chegou, o matuto disse:
_Não falei? Asfaltei a rua e não custou nada pra cidade!
_Mas esta fedor? Perguntou o prefeito.
_Ora!- falou o Matuto _ eu prometi o asfalto, e cumpri! Não falei que seria um asfalto com odor de rosas!
Quem mandou o prefeito não saber fazer promessas?

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