15º CONTO

 

 

                                    CONTAS  À  PAGAR !

 

 

O carro importado, com emblema famoso junto ao cofre fronteiriço, parou na avenida movimentada do centro, obrigado pelo sinaleiro, que mudara de cor.

O motorista, rapaz ainda, aproveitou a parada para fazer uso de seu celular.

Não percebe o aproximar de estranhos que em instantes, estavam encostados à porta do veiculo.

_É um assalto, moço!

Falou um garoto com roupas comuns, surradas pelo tempo, não aparentando mais do que seus doze anos, apontando ao motorista um Táurus, calibre 38, carregado.

_Você esta brincando, garoto? – Disse o rapaz, não acreditando no que acontecia.

_É um assalto moço! –Repetiu o garoto, apontando a arma _ O que tem ai pra mim?

O motorista colocou a mão na maçaneta e empurrou à porta contra o corpo do menino.

Com o tranco, a arma dispara, e o filete de sangue corre do peito do motorista, que tomba para o banco do carona, enquanto o assustado garoto corre pela avenida, levando a arma.

No final da tarde, enquanto o rádio e a TV dão a noticia da morte, em plano avenida, do jovem e promissor executivo, o garoto sobe o morro e, com cara assustada entra no barraco onde lhe espera a mãe, seis irmãos menores e o pai, que visivelmente embriagado, lhe pergunta.

_Então? Quanto conseguiu hoje, garoto?

_Nada! O moço reagiu! - Respondeu o menino, assustado.

A mão do alcoólatra estalou no rosto do menor com tamanho fúria, que um filete de sangue escorreu da boca do pequeno infrator.

_E porque você não limpou o cara? – Perguntou o pai, em fúria.

_Fiquei com medo! - Respondeu o menor, limpando o sangue.

Novo tapa, e outro filete de sangue escorreu da boca do menino, manchando a camisa encardida que vestia.

_E agora? – Disse o alcoolizado pai –Como vou pagar a conta do boteco?

O menino, passando a mão no rosto, saiu pela porta do barraco e sumiu, na escuridão do começo da noite.

Seis meses depois um menino, o mesmo garoto, é manchete na TV.

“Menor é baleado por PM, durante assalto em coletivo”- Diz o locutor do noticiário, que mostra o corpo sem vida do menino.

Ao ver a imagem, na TV preto e branco do boteco do morro , um freguês, grita

_“ Mataram meu filho!”

O dono do botequim, virando-se para um outro freguês, diz:

_É... Mas uma conta, que não vou receber!

Coisas deste pais!    

    

 

 

 

14º CONTO

 

 

                                  COISAS DA ECONOMIA.

 

 

_Qual é o preço da banana moço?- Perguntava uma freguesa ao feirante.

_Depende, minha senhora! – Respondia o comerciante.

_Depende do que?

_Ora, minha senhora, do dólar!

_Mas eu quero a banana....não caviar russo!

_Pois olha, ontem, este tal de caviar estava mais barato do que a banana, num sabe?

_O senhor esta curtindo com a minha cara?

_De maneira alguma, freguesa! É que a banana, ontem, estava cotada a três dólares, e o tal do caviar, valia dois e oitenta!

_Isso é um absurdo!

_Também acho, dona!

_Quanto vale, hoje a dúzia desta “preciosidade”?

_Deixe-me ver.... três dólares e quarenta e cinco....

_Tá muito caro!

_Também acho!

_Vou levar maçãs!

_Nacionais ou argentinas?

_Nacional, que é mais barata...

_Não, minha senhora!

_Não o que?

_A argentina, pela cotação, tá mais barata hoje!

_É um absurdo!

_Também acho!

_E quem resolve?

_E eu sei lá ??!!

 
13º CONTO

 

                                   COISA CORRIQUEDA

 

O tiro cortou a rua , e antigiu em cheio o peito de Onofre , que assista ao jogo do Palmeiras , na sala de estar. Foi um baque surdo , acompanhado de um filete de sangue..... Onofre nem soube o que o atingiu....... Quando Maria chegou perto , nada mais havia para ser feito , pois a bala atingira o coração do Palmeirense , com força muito superior a um gol do Corinthians , feito de falta e sem barreira . A bala atravessou a vidraça da sala , num ângulo perfeito , como se soubesse o endereço do pai de família .

O grito de Maria ecoou pela casa , e chegou a rua , onde a confusão já se fazia formada , pois cabo Laurindo segurava um revolver , apontando-o para o Mário. Já havia errado um tiro , mas o próximo, não era comum errar .

João Cardoso , dono do armazém tentava conversar com o cabo, que não queria conversar, pois Mário havia destratado Laurindo e isso, o antigo membro da força pública , não admitia. Quando o grito de Maria alcançou a pequena multidão, foi como um banho de água fria, pois todos se viraram para a mulher que atingia  a rua , trazendo as mãos manchadas pelo sangue do marido .

Cabo Laurindo, ao ver o sangue, instintivamente largou a arma, pois entendera o que havia acontecido . Onofre era seu compadre, padrinho de seu filho do meio, e Laurindo o tinha em alta conta . Mário correu para a casa de Onofre, e voltou confirmando: a bala atingira o velho Onofre, que lá estava sentado no sofá, com bermuda verde, sandálias havaiana nos pés, camisa do Palmeiras e uma bala, alojada no coração.

Chamou-se a  polícia.

João Cardoso recolheu a arma de Laurindo e a guardou na registradora do armazém .A rua em instantes se tornou o centro das atenções do bairro .A polícia chegou meia hora depois.....Laurindo entregou-se.......

Onofre foi para o instituo medico legal e Maria acompanhada pôr Mário e amigos, providenciou o velório.... Coisas corriqueiras, nada mais do que coisa corriqueira .....

12º CONTO

 

                                          CLEMENTINA.

 

 

 

Clementina vivia isolada em uma casinha ao pé da serra, sobrevivendo de pequenos serviços e do que conseguia tirar do pequeno de chão, entre a casa e a serra, onde plantara uma pequena horta e alguns vegetais.

Seus pais haviam falecido de lepra, e a jovem Clementina foi isolada pela vila, com medo da doença. Clementina, embora filha de leprosos, não desenvolvera doença alguma, mas mantinha-se em seu canto, ao pé da serra, preparando pequenos serviços a quem lhe procurasse . Seu sorriso era franco, aberto e humilde, e cativava todos com quem tratava.Desde muito jovem aprendera a arte do bordado em linho, e era a melhor bordadeira da região, visto que seus trabalhos estavam nas melhores casas da cidade, e recebia encomendas de todo o estado. Esta era a sua maior fonte de renda. Alem dos bordados, Clementina ganhara fama pôr suas “garrafadas” feitas com ervas medicinas de seu próprio cultivo, que serviam para diversas doenças.

Não havia sido uma “garrafada” de Clementina, que colocara novamente em pé o marido de Das Dores, de quando se rendeu, levantando saca de cimento, ainda na construção da casa nova? Também não havia uma garrafada sua, feito à filha de Marcolina, colocar pelas urinas as pedras, que o doutor Marcos teimava em operar ?

E quando o Juvencio pegou aquela infecção nos pulmões, não foi Clementina e suas garrafadas que o colocaram novamente respirando com normalidade ?

Foi Clementina também que deu cura na tosse do vigário, que carregava aquela rouquidão já fazia tempo

Clementina era assim desde menina......

Logo aos dez , já se prontificava a ajudar, e foi com quase treze que ajudou no parto do filho da Gertrudes , que nasceu virado.

Pois Clementina contrariando às ordens de doutor Inocencio, pai do doutor Marcos já falecido, sentou-se na barriga de Gertrudes  e só então nasceu o menino .

Agora, Clementina não mais se aventura, pois já esta na beira dos oitenta, com fortes dores pela corpo.

Pôr certo ainda faz seus bordados e mistura suas garrafadas, mas não se aventura a fazer o que fazia quando moça, pois a idade não lhe permite.

Nunca casou a Clementina .

A única companhia que possui e um gato de nome Germano, que criou desde pequeno.

No ultimo sábado, sentiu fortes dores no peito, e pensou que ia para o outro lado, mas tomou chá de boldo e sentiu-se melhor.

Horácio, como faz todos os dias, chegou no casebre de Clementina no final da tarde, e sentiu algo estranho.         

Chamou Clementina, mas ela não lhe respondeu .

A porta da frente, como sempre, estava só encostada, mas Clementina não estava lá.

Horácio foi encontrá-la estendia embaixo do pé de manga, tendo Germano deitado ao seu lado.   Clementina estava morta ! Na mão direita, preso entre os dedos, portava ela um terço de contas com pequeno crucifixo.

No peito dos pés, tanto no esquerdo como no direito, Clementina possuía uma ferida em forma de furo, de onde ainda brotava um filete de sangue. Na palma das mãos, o mesmo ferimento . Na testa, pouco acima dos olhos, se podia ver uma fileira de furinhos, todos brotando sangue .

Horácio, assustado, não tocou no corpo . Quando o vigário chegou, e viu o que Horácio lhe mostrou, postou-se junto ao corpo e puxou as orações em terço, que Horácio procurou acompanhar. A cada pedaço do terço, o corpo se compunha . Primeiro foram as chagas dos pés, que se fecharam. Depois foram as chagas das mãos e, pôr fim, sumira os pequenos furos da testa da anciã. Clementina ganhou uma serenidade absoluta, e o corpo, que estava gelado, voltou a quentura normal como se vivo estivesse . Parecia que Clementina havia suspirado a poucos minutos, e já se passara horas..... Seu corpo ganhou sepultura cristã e até hoje de seu mausoléu brota um vazamento de água doce, com gosto de manga que os crentes recolhem em pequenos vidrinhos.

Corre notícia que o líquido recolhido da sepultura tem cura certa para várias doenças , se usado com esperança e fé . Horácio, na data em que se comemora a morte de Clementina não pode sair de casa . Seus pés ficam roxos, com cor de sangue pisado, e as mãos ganham a mesma tonalidade . Horácio sente dores por todo o corpo, e não encontra ânimo para nada. No primeiro ano da morte de Clementina, bem no local  em que seu corpo foi encontrado, sem mais aquela,  pegou fogo no casebre ao pé da serra.  O mais estranho e que a horta e o pomar, nem sequer foram atingidos pela fumaça.

Explicação ? Para que ?

           

 

11º CONTO

ASFALTO

 

O prefeito da pequena cidade, eleito faziam menos de dois meses, enfrentava como podia a cobrança da população, tendo em vista suas promessas de campanha.

Prometera sem pensar nos conseqüências, que iria asfaltar cem por cento da cidade, mas esqueceu de que os cofres da cidade não tinha recursos, para a obra de asfaltar a cidade.

As cobranças do povo, no entanto, eram constante e direito, não dando trégua nem ao prefeito e nem aos seus assessores, e a coisa já estava incomodando o bom andamento da administração, pois nenhum funcionário da prefeitura podia circular pela cidade, sem ouvir as cobranças pela promessa feita.

De certa forma, a cidade tinha lá suas razões, pois o Juvenal, motorista de taxi, comprou um carro usado do Mário Quitandeiro.

No registro , mandou colocar a cor do carro, ou seja: mostarda, e assim foi feito o registro oficial, só que o Juvenal não falou com o Mário, quando fez o documento.

Na primeira chuva que caiu, pesada como sempre, o Juvenal descobriu que havia cometido um erro, pois o carro era bege, e não mostarda. A “mostarda”, era poeira, do barro vermelho que é , em seu todo, o calçamento da cidade.

Ninguém sofre mais com isso do que a Maria do Juarez, que depois da morte do pobre, sustenta os filhos como o lavar de roupa pra fora.

Já perdeu a conta das roupas que, do varal, voltaram para o tanque por causa do pó, que levanta da rua, quando um carro passa.

Certa manha, um matuto bem intencionado, encontrou-se com o prefeito na porta da prefeitura, e logo foi dizendo:

_Olha, eu tenho cá uma idéia, que vai resolver todos os problemas da cidade!

_Que idéia é esta?  - Disse o prefeito.

_Uma idéia para asfaltar, praticamente de graça, toda a cidade!

_Ora, amigo, a cidade não tem dinheiro! Respondeu o prefeito.

_Mas, para asfaltar, não é necessário gastar dinheiro nenhum!-

respondeu o matuto.

_Como assim? Perguntou o prefeito, curioso.

_Ora, vamo asfaltar a cidade com a bosta de boi, ora! -respondeu o matuto, serio.

Foi uma gargalhada geral, entre os assessores do prefeito, que o acompanhavam.

O matuto, magoado, saiu, prometendo mostrar o que dizia.

Uma semana depois, um caminhão despachava à porta da prefeitura, uma mistura estranha, feita de bosta de vaca, capim seco, água e um quarto de cimento comum, e o matuto acompanhado por dois amigos, espalharam aquela mistura na rua de chão batido, alisando muito bem tudo. Em duas horas, a rua frente a prefeitura não tinha mais nem um centímetro de barro a vista e não havia mais uma poeira levantando do chão.

Quando o prefeito chegou, o matuto disse:

_Não falei? Asfaltei a rua e não custou nada pra cidade!

_Mas esta fedor? Perguntou o prefeito.

_Ora!- falou o Matuto _ eu prometi o asfalto, e cumpri! Não falei que seria um asfalto com odor de rosas!

Quem mandou o prefeito não saber fazer promessas?

10° CONTO

AS TELHAS DE ZINCO

           

 

            Já faziam vinte dias que a chuva maltratava as folhas de zinco, que cobriam o pequeno barracão, onde o pai, a mãe oito filhos menores viviam, amontoados num quadrado três por três, feito de madeirite e coberto por aquelas folhas de zinco, que o pai arrumara com um amigo e prendera aos caibros com cordas de nylon, que a ação da chuva, ameaçava fazer com que se soltassem, num perigo iminente de vir tudo ao chão e ficarem todos ao desabrigo. A luz já havia sido cortada há algum tempo, quando a Companhia numa inspeção de rotina, descobriu que o homem havia puxado um fio clandestino, diretamente do poste da rua. A água vinha de tonéis, que a mulher colhia na fonte natural atrás do casebre, ao pé do morro.

            Na parede do lado direito, colado com durex de "segunda", ganho pelo garoto mais velho no Parque Infantil, podia se ver uma foto colorida de Sua Santidade o Papa, ao lado da Basílica de Aparecida do Norte, sem moldura... Do outro lado, uma foto antiga de Fidel Castro, também colada à parede com durex, se sustentava também sem moldura...

            Junto à cama, uma mesa ostentava um rádio de pilha já antigo, que teimava em continuar funcionando apesar da goteira que sobre ele pingava sem parada.  O fogão, era colocado num canto do barraco. Eram quatro tijolos  que seguravam uma grade de ferro batido, (que um dia fôra um portão de uma casa da rua de cima, há muito abandonada). A pia, se é que assim se pode denominar, era um tamborão de lata de 50 litros cortado ao meio, e pintado com piche para não enferrujar, ficava ao fundo. No outro lado do quadrado, uma rede presa aos cantos das folhas de zinco, balançava, fazendo dormir um menino de olhos verdes, nariz escorrendo e chupeta encardida à boca... De repente, a chuva parou.

            Minutos depois, um carro estacionava à porta do barraco, se é que podemos considerar como porta de algum lugar, aquelas duas folhas de madeirite, atravessadas por quatro pequenas ripas.

            Vamos considerar... pois foi ali que o carro negro estacionou...

            Um homem, vestindo terno preto de linho, adentrou pela porta traseira do veículo, aberta gentilmente pelo motorista...

            Com um aceno de mão, deu ele adeus à mulher e aos oito filhos, enquanto mandava o motorista seguir em frente...

            O carro negro, em sua chapa oficial, denunciava o emprego do pai daquela família:

            "Prefeito Municipal"

9º CONTO

 

ALGUÉM LÁ EM CIMA... OLHANDO!

 

 

         A bela menina está fazendo, naquela manhã de sol quente; em que os pássaros resolveram cantar a plenos pulmões; em que as flores do jardim teimaram em se abrir em cores vivas; em que as galinhas do galinheiro do fundo da casa, resolveram pôr o dobro dos ovos que costumavam pôr; em que seu pai resolvera dar uma parada no vício (de quarenta anos), de tomar uma pinguinha antes do café; em que seu irmão resolvera não urinar na cama de cima do beliche; em que sua mãe resolvera dormir de camisola de renda; em que seu avô depois de anos, resolvera contar a história de como matou a onça; em que o seu tio voltara da rua, pela primeira vez na vida, antes do dia amanhecer...

         A menina estava fazendo... oito anos, que partira para o Reino do "Papai-do-céu"... E via tudo isso acontecer, sentada numa nuvenzinha cor-de-rosa, a meio caminho entre a Terra e a porta do céu, onde São Pedro, de barbas brancas e chave na mão, controlava a entrada e a saída dos bonzinhos, iguais a ela, que saíra só para fazer uma pequena visita à Terra, mas já estava voltando... com um sorriso nos lábios...

         Ao passar por São Pedro, disse-lhe:

         _"Que bom!... eles não choram mais!... Minhas asinhas já estão quase secas!

 

8º CONTO

 

                      ABAIXO  A  LEI  INJUSTA

 

                O povo havia invadido a praça central da capital do estado , em uma grande manifestação contra o aumento descontrolado da carestia , pois o povo fugia do comércio , e muitos médios comerciantes fechavam seus estabelecimentos , pôr falta de clientes.

O povo , como sempre , decepcionado com a falta  de ação dos responsáveis pêlos poderes constituídos , invadia a praça pública , numa pacifica manifestação popular .

O presidente do sindicato do comercio varejista , com uso do megafone , em meio a palavras de ordem dirigidas a população , acusava pela carestia reinante a tal lei , e suas conseqüências .

O ato popular durou o dia inteiro .

Manoel Antônio dos Prazeres era um homem honesto e simples , que nascera e vivera sempre numa cidadezinha ao norte do estado , lá constituindo família e bens .

Pôr sua honestidade , dignidade e simplicidade , conseguiu o respeito e a amizade de todos em sua cidade natal .

Gozando de popularidade e muitos amigos , eleito foi vereador a câmara municipal .

Pôr força deste mandato , estava ele em visita a capital , quando deu-se a manifestação popular .

Meio assustado , mas muito curioso , meteu-se ele no meio da multidão , sem saber direito o que acontecia .

Esperto , como todo matuto que se preza , podia não entender , mas prestava uma atenção danada .

Quando escutou falar na tal da lei seus sentidos se colocaram em alerta .

Ao voltar à pensão , onde se hospedara , procurou saber que lei era aquela , que o homem culpava pôr tanto estrago . Outro hospede da pensão , estudante de economia , prontificou-se a explicar “tin-tin pôr tin-tin “ de que se tratava .

Explicou tudo e , pôr fim , explicou também que a tal da lei valia em qualquer lugar.

O matuto , sem perder tempo , voltou no mesmo dia para sua cidade .

Logo ao chegar , reunir seus assessores e , junto a eles , elaborou projeto de lei para apresentar na sessão da câmara, no dia seguinte .

No dia da sessão , pediu a palavra:

_Estive na capital ! Confesso que voltei meio que assustado , pois o povo foi lá pra Praça Central e colocou a boca no trombone , pôr causa de uma Lei que , pôr erro de não sei quem , tá provocando um punhado de desemprego pôr lá . Fiquei sabendo também que a tal da lei vale aqui também . Pôr isso, fiz o projeto, pedindo que se revogue  a “Lei da Oferta e da Procura” imediatamente!

Pôr incrível que pareça , a lei foi revogada pôr treze votos a zero !

Coisas da Política .

 

 

 

 

7ºCONTO

A VOLTA DE MARIA DAS DORES

 

 

Havia seis anos que Maria das Dores deixara o Sítio, em companhia de um turco, vendedor de panos coloridos, frascos de água-de-cheiro e colares de contas coloridas de vidro barato, que as meninas da região diziam ser  a última moda lá na Capital...

Seu pai pedira para o "mascate" levá-la, pois não encontrava meio de sustentá-la, sendo "alugado" do Coronel Edmundo Borges dono das terras e de certa maneira, dono dele também, já que a conta que tinha no Armazém do Coronel, ele não conseguiria pagar, mesmo vivendo cem anos. E tinha também, o caso da filha do compadre Leôncio, a menina Joana, que enquanto o Coronel não levou para a Casa Grande, não sossegou...Um ano depois, a menina voltou para casa, "buchuda", e o Coronel espalhou para os quatro cantos, que a menina, na época com treze anos, era "quenga"...O compadre Leôncio, teve um ataque e foi para a terra dos "pés-juntos", por vergonha, deixando a pequena Joana como distração para os peões...Não queria aquilo para Das Dores, por isso, resolveu entregá-la ao turco... ele cuidaria bem dela, e lá se foi Das Dores e o turco "mascate"... isso há seis anos...O sol resolvera anunciar que o dia era perfeito...O mormaço iniciava-se, estorricando os poucos pés de mato, que conseguiam viver naquele deserto, onde só viam o novo dia, os homens fortes e os bois valente... Com o sol à pino, já quase ao meio-dia, um menino de seus doze anos, chegou à porta do casebre, trazendo um telegrama ao velho "alugado". Como o matuto não soubesse juntar as letras, pediu ao menino, que soletrasse o que dizia aquele pedaço de papel...  O menino, com dificuldade, leu o telegrama:

 _"Pai, chego no trem das duas. Beijos em todos.

                                                                 Das Dores."

Agradecendo ao garoto, com uma lágrima já pendurada no canto dos olhos, o "alugado" entrou em seu casebre e aos berros avisou à velha mãe, que a filha voltava, enquanto vestia sua melhor roupa e calçava suas botinas, que herdara do finado Leôncio, que Deus o tenha, e partia em carreira para a Estação, para esperar o trem, pois, sua Das Dores voltava...

Chegou ele à Estação, quando o trem começava a apontar na curva do Cemitério, junto à ponte, e já se podia ver a velha "Maria-Fumaça", entrando majestosa na linha reta que a traria à Estação...

O coração do velho pulava tanto quanto os vagões balançavam...  A mente do pai aflito fazia-lhe perguntas...

_"O que traria Das Dores de volta?"

_"Será que estava doente?..."

Estático, permanecia o velho "alugado" na Estação, com os olhos fixos na Locomotiva e nos três vagões de passageiros, que a velha máquina teimava em puxar desde a Capital...  Finalmente o trem parou...  Descem vários peões e... Maria das Dores!...

Vestia um conjunto de brim, com saia pouco acima dos joelhos, colar de pérolas legítimas ao pescoço, e cabelos impecavelmente penteados.

Dois minutos depois, o velho "alugado", cai para trás.. O médico do Posto de Saúde, depois de examinar o ancião, deu o diagnóstico:

_"Enfarto do miocárdio... morte instantânea!"

Das Dores, desesperada, abraça-se ao companheiro de viagem, que teria ido à Capital especialmente para buscá-la.

Quando o Chefe da Estação chegou perto da cena que ali acontecia, antes mesmo de cumprimentar Das Dores, estendeu a mão ao seu companheiro e disse:

                _"O que posso fazer pelo senhor, Coronel Edmundo Borges

6ºCONTO

A SOBREMESA

 

 

                Dona Carmela, era há mais tempo que a memória se lembra, a responsável pela Agência dos Correios da pequena cidade, onde tudo era de conhecimento de todos, e os segredos dos "antigamente", guardados a sete chaves, das quais, Dona Carmela, já tirara cópias de há muito!

                A vida de Dona Carmela, viúva há tanto tempo, que nem mais sabia onde andava a sua certidão de casamento, era a de uma senhora de meia idade, embora comentassem  vez por outra, que algumas noites, a boa senhora, deixava a porta dos fundos aberta, por onde entrava Seu Malaquias, altas horas da noite, pé-ante-pé... e só saía pouco antes do galo cantar.

                Comentavam que Dona Carmela fazia o pobre do Seu Malaquias suar frio, frente às  posições eróticas que inventava, à luz do lampião...

                O finado, aparecera morto certa manhã, nu em pêlo, com os olhos arregalados e um sorriso sacana aos lábios...

                O médico, chamado às carreiras, constatou que o pobre morrera do coração!

                Assim ficara viúva Dona Carmela, que acostumara-se, com o correr do tempo, a deixar a porta dos fundos aberta...

                No dia anterior ao velório do finado, Dona Carmela, mestra de forno e fogão, preparara para a janta, moqueca de linguado, regada a azeite de dendê, e contava, algumas horas antes do sepultamento de seu marido, que o finado, havia se empapuçado com sua deliciosa iguaria!

                Contam, aqueles que ao velório compareceram, que o defunto teve de ser enterrado com a barrigudinha, das calças, aberta, pois não houve "Cristo" que conseguisse fazer seu "mastro" baixar a bandeira!

                Motivo foi de risos no "Buteco  do Turco Abdala", amigo do falecido, onde o finado passava as horas da tarde, em constante contar de causos...

                Dona Carmela arrumou a maior confusão no velório, quando "Joaquina Prega-Aberta", uma velha cafetina da cidade vizinha, resolveu aparecer, com "duas fulaninhas"...

                O trio, encostado ao caixão, chorava aos soluços, enquanto a velha cafetina, alisava o "mastro", que não descera a bandeira...

                O enterro do finado foi o mais concorrido da cidade, pois o caixão, por causa da altura do "mastro", não fechava, e teve de ir de casa ao cemitério aberto!

                Seu Lindolfo, velho amigo do falecido, mas "sarrista de carteirinha", garantia no velório, de "pés juntos", que o que matara o finado, não fôra a moqueca de linguado...

                -"Foi a sobremesa, preparada com esmêro e qualidade, que só a comadre Carmela sabe fazer!"

 

5º CONTO

A GREVE.

No tempo do antigamente, quando tudo e todos tinham o poder do raciocínio e da fala, houve uma grande seca, porque às nuvens, que são as encarregadas de trazer a terra a chuva, resolveram decretar uma greve, porque o seu raio foi como clandestino em uma das viagens fez um barulho medonho.

Pôr causa disto São Pedro chamou as nuvens "As falas", dando-lhes tremenda bronca.

As nuvens, mangadas e envergonhadas, pois afinal São Pedro brigou com elas sem motivo, resolveram fazer uma greve, e por causa disso a terra ganhou em período de seca, que levou alguns rios a terem que diminuir de tamanho, e outros, os menores, retornaram às suas nascentes, esperando dias melhores.

A greve das nuvens durou muito tempo, e os se resolveu quando um mediador poderoso se meteu no assunto.

O mediador foi o senhor vento, que foi reclamar com São Pedro pois, pôr não haver chuvas, ele estava trabalhando dobrado, e isso não era justo.

O sol fez também sua reclamação pois, sem nuvens, ele não tinha onde descansar e avisou que, se São Pedro não resolvesse logo aquele assunto , ele também entraria em greve.

Quando se espalhou a notícia que o sol ameaçava também entrar em greve, dona lua se esquentou :

_ Como ?! Então vou ter que trabalhar sozinha ? Isso não e justo.

Diante da situação, o mar, na qualidade de o mais antigo elemento da natureza, mandou uma carta a São Pedro:

"Meu caro Pedro

As coisas já estão ficando difíceis. Venho suprindo água para todo mundo. Não sei se posso aquentar esta situação pôr muito tempo. Acho bom vocês ai em cima, começarem a colocar ordem nas coisas , ou este treco aqui vai pró vinagre".

"OCEANO"

 

Para complicar um pouquinho mais a vida do pobre do São Pedro, a "associação dos rios caudalosos" entrou com um mandato de segurança, pedindo garantias de rente oração dos seus antigos leitos, pois já estavam começando uma invasão , pelo "Movimento das Plantas Sem Espaço".

O PPLS = Partido dos Plantadores em Leito Seco = , aproveitando a situação, solicitava uma reforma agrária nos leitos, pois como estavam, eram áreas improdutivas

O congresso celestial dos arcanjos, pôr sua vez, mandou pedido de explicações a São Pedro , pois já havia a preparação de uma "CPI" para encontrar solução para o problema.

Em contra partida, o Ministério da Saúde Vegetal fez pedido de verba suplementar, pois o estoque de líquidos dos hospitais ecológicos já se encontravam em estado critico.

A Polícia Celestial também mandava representação, já que a seca causava mortes em excesso, e a situação já começava a fugir do controle.

O Sistema Aéreo Animal, atendendo a solicitação de seus subordinados, pedia providencias para o retorno das nuvens, pois sem sombras, já acontecera diversos acidentes aéreos, pôr insolação em pleno vôo.

Como se não bastasse, a "Associação Internacional dos Peixes de Água Doce" entraram com um pedido de garantia de espaço, pois com a diminuição dos leitos fluviais, os leitos existentes estavam com excesso de população , e já acontecia problemas como excesso de detritos fecais e um contingente incalculável de peixes desabrigados.

Diante disto tudo, o Congrego Permanente dos Elementos da Natureza convocou reunião em caráter de urgência.

Desta reunião, saiu um documento, responsabilizando São Pedro pôr todas as calamidades existentes.

Com isso, São Pedro e seu gabinete ficaram em situação delicada perante o Congrego dos Arcanjos.

Numa reunião sigilosa com o "Todo Poderoso", o nobre chaveiro do céu colocou seu cargo a disposição, mas foi recusada a sua demissão, e se encontrou outra saída: uma reunião entre São Pedro e a Comissão das Nuvens Grevistas.

Nessa reunião , São Pedro foi um excelente diplomata, pois reconheceu que havia sido injusto, ao culpar as nuvens pelo erro do tal raio clandestino.

As oitos da manhã , do sábado de aleluia, o céu ficou negro!

Todas as nuvens voltaram ao serviço com força total.

Foram seis meses de chuva , sem descanso !

Ai , aconteceu um imprevisto. A escala de serviço do Sindicato das Nuvens Carregadas, tinha atraso e não havia como acertar a escala , a não ser com horas extras.

Acontece que a carga de chuva , com hora extra e tudo , deu motivos para reclamações de inundações pôr todo canto.

Mas esta historia fica para outra oportunidade , pois tenho que chamar um pedreiro , para tapar umas goteiras, pois a minha mesa esta já , com poça d’água!

_ É nestas horas que tenho saudades do período da seca.....

4º CONTO

A FÉ

No alto da escadaria do morro da boa viagem, apareceu certa manhã uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, faltando a cabeça.

A imagem estava bem no meio de uma mesa farta, daquelas preparadas no capricho, pelos adeptos do candomblé.

Do lado direito, estava uma vela azul acessa e, no esquerdo, dentro de um copo de vidro, cheio até a boca de azeite de dendê, se via a cabeça da santa.

Amontoou-se o povo, ao redor do achado, sem saber como colocar fim aquele afronto religioso.

Maurício da Joana, mestre em solucionar problemas, arrumando outros, sentenciou:

_Isso é uma falta de respeito!

Jerônimo da Conceição, com a autoridade de filho de santo, com cabeça raspada na Bahia, e montureira de guias multicoloridas ao pescoço, bateu o pé no chão três vezes, e disse:

_Ninguém toca em nada, pois é despacho pro bem!

A confusão se formou, pois uns apoiavam Maurício, que queria retirar tudo aquilo da escadaria do morro, e outros apoiavam Jeronimo, que dizia que o trabalho merecia respeito.

Conceição, mãe de santo das melhores, já passando de seus setenta e tantos anos, foi chamada e, ao chegar não falou com ninguém, apenas colocou a mão no copo de azeite, retirou dele a cabeça da santa, e a colocou-a ao seu lugar.

Quando Conceição virou-se ,a cabeça caiu do pescoço da santa e mergulhou novamente no copo de azeite.

Conceição , ao ver aquilo, ajoelhou-se frente à imagem, e prestou seus respeitos, acompanhada por Jeronimo e alguns moradores.

A escadaria do morro, a esta altura, já estava repleta, querendo ver a santa.

Meia hora depois um cego, que ao pé do morro vendia velas, começou a dizer aos gritos que estava vendo a santa, e a noticia se espalhou.

O "Zé da Venda", dono de uma xiboca no meio do alameda, colocou refrigerante e cervejas em lata em algumas caixas de isopor, e espalhou os filhos em meio a multidão, tentando faturar um extra.

Marcolina, doceira de mão cheia, fez um tabuleiro de quindins e entrou na multidão.

Em minutos, tinha vendido todos!

Três dias se passaram, e lá estava a multidão e, no alto da escadaria, o tal despacho, com a santa ao meio, sem cabeça.

Horácio, carpinteiro de mão cheia, devoto "ate debaixo

d’água" de Nossa Senhora Aparecida, quando viu que o tempo começava a fechar, com ameaça de chuva, fez uma espécie de cobertura, com madeira, e colocou em cima da santa.

No alto da escadaria, ficou parecendo que havia uma pequena capela, de tão caprichado que ficou o trabalho do Horácio!

Marcolino, que ganhava a vida como fotógrafo, fez bela foto do alto da escadaria, tendo o despacho e a santa, como modelo. Vendeu mais de duas mil copias a três reais cada.

Faturou "uma baba", com a idéia!

Joana, que tinha uma vendinha de imagens de santo, em meia hora ficou sem seu estoque de Nossas Senhoras Aparecida, e mandou buscar mais em Jacarepaguá, onde era fabrica.

A movimentação no morro, chamou a atenção da igreja católica, que tinha pequena capela ao pé do morro.

Padre Justino esteve ao pé do despacho e, pra susto de muitos, abençoou a multidão e, ali mesmo, acabou rezando missa e distribuindo hóstias sagradas.

O morro nunca mais foi o mesmo, depois que apareceu aquele despacho no alto da escadaria.

Ate o índice de crimes comuns e roubos, caiu cinqüenta por cento, depois que a santa sem cabeça apareceu.

Descobriu-se certo tempo depois, que o cego que viu a santa nem cego era, mas quem ia contar ao povo?

Logo, um grupo de "notáveis" do morro, formaram uma espécie de confraria, que tinha como objetivo o preservar do local onde apareceu o despacho e coordenar o uso comercial da imagem e suas conseqüências para a comunidade.

Em pouco tempo, graças a coordenação da tal confraria, o morro ganhou calçamento, rede elétrica extensiva aos barracos, uma creche, posto de saúde e outros benefícios sociais que, ate então, eram sonhos de idealistas.

No local do despacho, a confraria mandou levantar uma capela de alvenaria no alto da escadaria.

Um ano depois, como a capelinha começou a ficar pequena para os romeiros, que diariamente movimentavam o morro, a confraria pediu desapropriação de alguns barracos e foi feita a reforma da capelinha, nascendo no local uma media igrejinha.

No ato de transferir a imagem para a nova capela, já aumentada, descobriu-se que a imagem da santa possuía uma espécie de mola no pescoço. Era por isso que a cabeça da santa não parava no local.

Embora descobrindo-se que tudo não passava de uma bem montada fraude, ninguém espalhou a noticia pois, fraude ou não, o despacho no final da contas acabou beneficiando o morro e o que interessa é o resultado, como em tudo na vida.

Afinal, o que vale é a fé!

 

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